A função educadora do sermão

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Atualmente, a palavra “sermão” já se pode entender simplesmente como um “discurso longo e enfadonho com que se procura convencer alguém” . Nosso tempo, mais voltado para o visual, para os “efeitos especiais”, para o imediato, e menos propenso ao ouvir e à reflexão, mal pode imaginar o que representavam para o povo os sermões de pregadores geniais como Agostinho, Crisóstomo, Bernardo, Tomás de Aquino e outros grandes mestres antigos e medievais.

O sermão complementava as leituras litúrgicas da missa. Enquanto pregação oficial da Igreja, expressava também seu caráter hierárquico: era o bispo quem falava de sua cátedra, em geral sentado. Os fiéis o ouviam em pé, muitos deles munidos de um cajado para apoiar-se.

Logo cedo, normalmente aos sábados e domingos, o bispo vinha ao encontro da elite espiritual de seus fiéis. O povo, como era costume na Antigüidade, várias vezes aplaudia e aclamava o pregador ao longo do sermão. Mostrava desse modo que estava entendendo uma alusão mais sutil, ou que concordava com uma admoestação, ou que se lembrava da explicação dada num sermão anterior, ou que considerava uma sentença particularmente feliz.

Os sermões podiam durar dez minutos ou duas horas, dependendo da conveniência pastoral, do número e da formação dos assistentes, da ocasião litúrgica, da complexidade do tema, da disposição do pregador, ou mesmo do calor. O próprio Agostinho freqüentemente manifestava sua intenção de não se prolongar por muito tempo e chegava a pedir “um pouco mais de paciência” quando o desenvolvimento do sermão o obrigava a demorar-se.

De qualquer forma, os assuntos doutrinais e teológicos continham para aqueles ouvintes um significado único. Não eram vistos como uma coisa acessória ao cotidiano mas como algo vívido e vivido, de profundo alcance existencial. Só levando em conta este vínculo entre religião e vida é possível compreender o impacto educacional que a homilética de então provocava. O último camponês analfabeto e o trabalhador mais rústico podiam estar destituídos de tudo. Tinham, porém, uma riqueza inalienável: a de encontrar na Igreja (e na igreja) a abertura da alma para a grandiosidade, tanto arquitetônica e plástica ( [5] ) como a da inteligência e a da palavra.

 

O valor pedagógico da memória na pregação

 

O principal interesse do bispo de Hipona era pastoral e não retórico, embora, precisamente por isso, apresentasse discursos de inesquecível beleza. Voltava-se para o homem comum, apoiando-se – aliás, como fazia todo o educador da época – na sensibilidade e na memória de seus ouvintes.

Ao contrário da pedagogia atual, que não valoriza e até chega a desprezar a memória, Agostinho e todos os grandes medievais sabiam reconhecê-la como o tesouro por excelência, como um precioso dom de Deus. A memória, muito mais do que a mera faculdade natural de “lembrar-se” ou o exercício de habilidades mnemônicas, era vista como a base de todo o relacionamento humano com a realidade. “A memória é, para S. Agostinho, a primeira realidade do espírito, a partir da qual se originam o pensar e o querer; e assim constitui uma imagem de Deus Pai, de quem procedem o Verbo e o Espírito Santo”.

Além disso, devemos considerar também o fato de que a época carecia de recursos de escrita (até a escrita manual era dificultosa). A memória, portanto, era o principal instrumento de quem aprendia, e muitos sabiam de cor os sermões de Agostinho! Que professor ou que pregador hoje em dia atrever-se-iam a sugerir que alguém literalmente decorasse um discurso de uma hora de duração? Para os antigos, porém, esse pedido fazia sentido.

O sermão se dirigia mais a lembrar verdades já sabidas do que a transmitir novos ensinamentos. E Agostinho não se importava de repetir certas idéias todos os anos, o que fazia os ouvintes mais afoitos anteciparem-se ao sorridente pregador.

Prof. Cândido

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